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A comunicação pertence a todos: o parceiro comunicativo é parte da reabilitação

“Não se percebe nada do que ele diz.” Esta frase, dita por um familiar, levanta uma questão essencial: estamos a descrever a pessoa — ou a nossa incapacidade de interagir com ela?

A comunicação não é um ato individual. É construída entre pessoas. E isso muda tudo na forma como entendemos — e fazemos — a reabilitação da afasia.

Neste artigo partilhamos aprendizagens de um caso clínico acompanhado no IPA, que ilustra o que acontece quando alargamos o foco: da pessoa com afasia para o sistema comunicativo completo — que inclui também os seus parceiros e contextos.

A competência comunicativa existe — o contexto é que a revela

No caso que acompanhámos — um homem com perturbação cognitivo-comunicativa após traumatismo crânio-encefálico —, a mesma pessoa comunicava de forma muito diferente consoante o contexto. Em ambientes previsíveis, a família compreendia-o bem. Quando o contexto deixava de ajudar, as dificuldades multiplicavam-se — para ele e para todos.

Em sessão terapêutica, com tempo, suporte visual e estratégias adequadas, a pessoa conseguia transmitir informação relevante e usar estratégias compensatórias de forma eficaz. A competência estava lá. O contexto é que a revelava ou escondia.

O desempenho comunicativo não podia ser explicado apenas pelas alterações da pessoa. A comunicação estava a ser construída — ou limitada — na interação.

O que mudou quando trabalhamos com os parceiros comunicativos

À medida que a família recebeu psicoeducação e treino, a interação transformou-se:

  • Falar mais devagar, com frases mais curtas e perguntas estruturadas
  • Dar mais tempo de resposta, sem completar as frases pela pessoa
  • Usar imagens, gestos e suporte visual para apoiar a compreensão
  • Confirmar a mensagem: “Estou a perceber que queres dizer X. É isso?”

Um exemplo concreto: em contexto de café, a filha passou a fazer perguntas fechadas com opções visuais no telemóvel. O pai começou a fazer escolhas autónomas — a participar, não a ser representado.

A melhoria não foi nem “só a pessoa” nem “só a família”. O que melhorou foi o sistema comunicativo completo. Não há reabilitação unilateral em comunicação funcional.

O terapeuta da fala: além da díade terapêutica

Trabalhar com afasia exige alargar o foco. O terapeuta da fala tem um papel fundamental no treino de parceiros, na adaptação de contextos e no desenvolvimento de recursos acessíveis. Neste caso, a intervenção foi realizada em teleterapia, o que permitiu chegar a uma família geograficamente distante — com resultados comparáveis à presencialidade.

Melhorar competências linguísticas não garante, por si só, participação social. A reabilitação que muda vidas acontece quando também os contextos — e as pessoas que os habitam — se transformam.

O que pode fazer, hoje

  • Fale de frente, devagar e com frases simples
  • Faça perguntas de sim/não ou com opções claras
  • Use gestos, imagens ou palavras escritas para apoiar a conversa
  • Dê tempo — sem pressão e sem completar as frases pela pessoa
  • Reduza o ruído de fundo e confirme se foi compreendido

Quer saber mais? Conheça os serviços do IPA, incluindo a teleterapia e o apoio a famílias. Partilhe este artigo com quem cuida ou convive com uma pessoa com afasia. Juntos, tornamos a comunicação mais acessível para todos.

 

Alexandra Magalhães – Terapeuta da fala

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