Enquanto fundadoras do Instituto Português da Afasia (IPA) e terapeutas da fala e investigadoras na área da afasia em Portugal, participámos na International Aphasia Rehabilitation Conference 2026 (IARC 2026), em Atenas, na Grécia.
Foram dias intensos de partilha de conhecimento, com temas como a participação social de pessoas com afasia, novas abordagens de intervenção terapêutica, tecnologia aplicada à comunicação e o envolvimento da família no processo de reabilitação — tudo isto alinhado com a abordagem de Participação na Vida (LPAA) que orienta o trabalho do IPA.
Levámos até Atenas dois trabalhos que refletem esse compromisso:
🔹 Um estudo pré-pós sobre o impacto do Programa Essencial Online no empoderamento das pessoas com afasia e dos seus familiares — explorando como a intervenção à distância pode reforçar a autonomia e a confiança de quem vive com esta condição.
🔹 Um estudo de métodos mistos sobre a nossa app de comunicação móvel, olhando tanto para os dados de utilização como para as experiências reais de quem a usa no dia a dia, nomeadamente de pessoas com afasia e de terapeutas da fala.
Voltámos com uma mala cheia de ideias, projetos inspiradores e reflexões — e, mais uma vez, com um misto de orgulho e inquietação.
Orgulho, por vermos confirmado que o caminho que o IPA tem vindo a trilhar — grupos de conversação, apoio às famílias, exploração de ferramentas digitais — está alinhado com o que de mais atual se discute internacionalmente.
Inquietação, por percebermos, uma vez mais, o quanto Portugal ainda tem a fazer para transformar essa mesma evidência em prática instalada, sustentada e acessível a todos os que dela precisam.
Terapia intensiva não é para todos, e isso também é evidência
Um dos temas mais discutidos em Atenas foi o dos programas de terapia intensiva para a afasia —geralmente, um mínimo de três horas de terapia por dia, cinco dias por semana, durante pelo menos duas semanas —, que combinam sessões individuais e de grupo, abordando múltiplos níveis de funcionamento (segundo a CIF) e incluindo componentes educativos para os participantes e/ou cuidadores/familiares. A ideia por trás destes programas é simples: o cérebro aprende melhor com prática frequente e concentrada.
Mas o que mais nos impressionou não foi a defesa destes programas, mas a honestidade com que a própria comunidade internacional os está a questionar: nem todas as pessoas toleram ou escolhem este ritmo, uma parte significativa recusa-se a participar quando lhe é proposto, e os ganhos conseguidos podem perder-se com o tempo se não houver continuidade depois de o programa terminar.
A pergunta que a investigação está agora a colocar já não é “isto funciona?”, mas sim “para quem funciona, e como se implementa bem, de forma sustentada?” — e é exatamente aqui que encontrámos mais um exemplo inspirador destes dias: o programa CHAT (Comprehensive High-dose Aphasia Treatment), desenvolvido na Universidade de Queensland, Brisbane, na Austrália, que já não é apresentado apenas como uma intervenção clínica, mas como todo um processo de implementação, com formação de equipas, materiais de apoio e, sobretudo, uma pessoa em cada serviço responsável por “abraçar” o projeto localmente. É este tipo de pensamento — a intervenção e a sua implementação desenhadas em paralelo, desde o primeiro dia — que continua praticamente ausente em Portugal.
Grupos de conversação: evidência sólida para uma prática que já fazemos
Os grupos de conversação são uma das práticas mais antigas e mais queridas do IPA, e em Atenas tivemos o gosto de ver investigação recente a confirmar, com dados sólidos, aquilo que a nossa experiência clínica já nos mostra: participar em grupos de conversação melhora a comunicação e a qualidade de vida das pessoas com afasia, e essas melhorias não acontecem por acaso.
Aprendemos também que o desenho do grupo importa: grupos grandes, com perfis semelhantes entre si, parecem funcionar particularmente bem para pessoas com afasia ligeira, enquanto, para perfis mais graves, o benefício é, por vezes, mais visível na comunicação do dia a dia do que em testes de linguagem mais formais — um lembrete importante de que a ausência de mudança numa medida-padrão não significa ausência de valor para a pessoa.
Ouvimos ainda, com particular interesse, que os tópicos emocionais não devem ser evitados nestes grupos — pelo contrário, partilhar dificuldades e sentimentos ajuda as pessoas a reconstruir a sua identidade após a afasia e fortalece os laços entre os participantes. Para isso, porém, é essencial que quem facilita estes grupos tenha formação própria na área do aconselhamento, do suporte emocional… e esta não é uma competência que vem automaticamente com o diploma de terapeuta da fala.
Ainda dentro deste tema, ficou também claro um interesse crescente em apoiar não só a pessoa com afasia, mas também o casal — a forma como marido e mulher comunicam entre si depois da afasia. É uma área ainda pouco explorada, também entre nós, e que nos parece merecer muito mais atenção.
Cuidar de quem cuida: a saúde mental continua esquecida
Um terceiro fio condutor da conferência foi o reconhecimento de que os profissionais que trabalham com AVC precisam, eles próprios, de formação para lidar com o sofrimento emocional das pessoas com afasia — não basta saber trabalhar a linguagem. Vimos um investimento internacional claro na formação de competências para a deteção precoce do sofrimento emocional, na formação básica em aconselhamento e no recurso a técnicas simples de apoio psicológico. Vimos também, com agrado, uma plataforma gratuita do serviço de saúde britânico, disponível a qualquer profissional que contacte com pessoas com AVC — não só terapeutas da fala, mas também enfermeiros, médicos e auxiliares.
Em Portugal, esta continua a ser uma das lacunas mais evidentes e, acreditamos, uma das mais fáceis de começar a colmatar: formar as nossas próprias equipas não apenas em linguagem, mas também em bem-estar emocional.
Vozes fora do centro habitual da investigação
Um dos trabalhos que se destacou foi uma investigação sobre como as pessoas com afasia na América Latina vivem a comunicação no seu dia a dia — um estudo particularmente relevante porque a maior parte da evidência científica em afasia continua a vir de países ricos, de língua inglesa. Portugal, tal como a América Latina, fica à margem desse centro de produção de conhecimento. O estudo mostrou que a comunicação após a afasia é sobretudo um processo de reconstrução — da identidade, das emoções, da participação social, das relações e da vida prática — e reforça uma convicção que já trazíamos: as boas práticas que vêm de fora precisam ser adaptadas ao nosso contexto e à nossa língua, e não apenas copiadas.
E a inteligência artificial?
A inteligência artificial teve destaque logo na abertura da conferência, mas foi apenas uma parte, e não a maior, de tudo o que se discutiu ao longo dos três dias. Já existem ferramentas capazes de “adivinhar” o que uma pessoa com afasia está a tentar dizer a partir de um discurso fragmentado, com resultados mais fortes em conversas do dia a dia do que em tarefas formais, e que melhoram à medida que conhecem melhor a pessoa e a sua vida. Persistem, no entanto, limitações importantes, sobretudo no reconhecimento automático de fala muito alterada. É uma área promissora, que continuaremos a explorar nos nossos próprios projetos digitais no IPA, sempre com supervisão clínica e espírito crítico.
O caminho faz-se caminhando!
Saímos de Atenas com a mesma convicção que já trouxemos de outras conferências internacionais: o problema não é a falta de evidência, é a distância entre o que já se sabe e o que ainda se pratica em Portugal. Continuamos sem investimento dedicado à investigação em afasia, sem estruturas que sustentem essa investigação a longo prazo, e sem terapeutas da fala suficientes nos serviços de saúde. Continuamos, também, a trabalhar de forma demasiado isolada — entre terapeutas, entre instituições, entre disciplinas. Mas trazemos também motivos concretos para continuar: a confirmação de que os nossos grupos de conversação fazem sentido e têm evidência a apoiá-los, um lembrete claro de que a saúde mental de quem vive com afasia não pode continuar em segundo plano, e a certeza de que Portugal — tal como outros países fora do centro habitual da investigação — tem uma voz própria a dar a esta conversa internacional, desde que a saibamos organizar e partilhar.
O desafio está lançado, e o IPA está pronto para continuar a construir pontes — dentro e fora do país.
Assunção Matos (PhD) e Paula Valente (MSc)
Terapeutas da fala e fundadoras do IPA




- by IPA
- on 10 de Julho, 2026


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