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Palhaçoterapia na Afasia: liberdade, vulnerabilidade e comunicação


No último mês, graças ao apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia de Portugal, foi possível que eu, Lenisa, realizasse uma mobilidade docente na Universidade de Aveiro, incluindo a realização de workshops de palhaçoterapia com pessoas com afasia no Instituto Português de Afasia, no Porto. 

Chamei minha querida colega Karina Pereira para compartilhar comigo a facilitação no IPA e foi uma grande alegria.

Esta experiência integra um estudo exploratório que estamos a desenvolver com a Professora Assunção de Matos e a Terapeuta da Fala Paula Valente sobre a viabilidade e aceitabilidade da palhaçoterapia para pessoas com afasia em Portugal — um projecto que nasce dos resultados promissores obtidos no Brasil e recentemente publicados na revista científica Aphasiology.

Mas antes de falarmos de dados, queremos falar de pessoas.

O que acontece quando o erro deixa de ser vergonha?

A filosofia do palhaço ensina-nos algo profundamente transformador: o erro não é fracasso — é encontro. O palhaço não procura ser brilhante nem perfeito. Ele assume os seus tropeços com verdade, expõe a sua vulnerabilidade sem vergonha e, precisamente por isso, é amado.

Foi esta mudança de perspectiva que levámos aos workshops. Trabalhámos ferramentas de comunicação compassiva, técnicas do teatro clown e, sobretudo, a aplicação da filosofia do palhaço à comunicação na afasia: liberdade para experimentar; aceitação das diferenças; valorização da expressão não convencional; e uma nova relação com os “fracassos” comunicativos.

Observámos algo muito bonito: os participantes estavam profundamente abertos à proposta. Trouxeram de casa acessórios excêntricos, envolveram-se nos exercícios, partilharam as suas verdades. Não negaram as suas tristezas, mas trouxeram também esperança, humor, disponibilidade para estar juntos.

E, sobretudo, talento.

Criatividade que emerge quando há espaço.

Ao longo dos encontros trabalhámos com jogos corporais e vocais, improvisação, imaginação guiada, criação de objectos invisíveis, expressão emocional através do corpo e a linguagem inventada do gramelô — uma forma de expressão vocal sem palavras reais, centrada na musicalidade e na emoção.

Os participantes brincaram com sons, criaram diálogos não verbais, interpretaram emoções apenas com o corpo, improvisaram cenas em parceria. Houve solidariedade espontânea, apoio mútuo, aceitação do parceiro de cena e disponibilidade para receber ajuda.

Vimos manifestações poéticas de improviso. Vimos humor fino. Vimos coragem.

E vimos algo muito importante: quando o peso da “fala correcta” diminui, a comunicação floresce.

O que nos diz a ciência sobre a palhaçoterapia na afasia?

Num estudo-piloto realizado no Brasil com 26 pessoas com afasia expressiva crónica pós-AVC, ao longo de cinco meses de intervenção semanal em palhaçoterapia, observaram-se melhorias significativas na qualidade de vida — especialmente no domínio da comunicação —, na comunicação funcional e em tarefas de linguagem expressiva como nomeação e repetição.

Um dado particularmente interessante foi que participantes com diagnóstico de depressão ou ansiedade apresentaram ganhos ainda mais expressivos em alguns domínios, nomeadamente energia e desempenho linguístico.

Estes resultados são coerentes com a literatura científica que demonstra que o humor pode reduzir ansiedade e tensão comunicativa; que a expressão multimodal (gestos, prosódia, expressão facial) pode apoiar o desempenho comunicativo na afasia; e que ambientes criativos e teatrais podem reforçar autoestima, participação social e confiança comunicativa.

A palhaçoterapia combina precisamente humor, expressão corporal, improvisação e relação horizontal entre facilitadores e participantes. Não substitui a terapia da fala tradicional, mas pode funcionar como complemento poderoso, especialmente no domínio psicossocial da reabilitação.

A experiência em Portugal: abertura e colaboração

Nos workshops realizados no Porto e em Aveiro sentimos uma enorme abertura — tanto por parte dos participantes como da equipa do Instituto Português de Afasia e dos colaboradores e participantes na Universidade de Aveiro.

Foi inspirador observar a criatividade da própria equipa, a integração natural das propostas e a consonância com uma filosofia que já valoriza a diversidade comunicativa e a inclusão.

O estudo exploratório em Portugal pretende compreender melhor a viabilidade da palhaçoterapia no contexto português, a sua aceitabilidade por parte das pessoas com afasia e o seu potencial contributo para a qualidade de vida e comunicação.

Acreditamos que a reabilitação da afasia não se faz apenas com treino linguístico. Faz-se também com identidade, com pertença, com humor e com liberdade para errar e continuar.

O palhaço ensina-nos que comunicar não é ser perfeito. É estar disponível ao outro e a si mesmo.

E talvez seja essa disponibilidade — para o encontro, para o erro e para a diferença — que abre novas possibilidades de expressão.

Artigo escrito por Lenisa Brandão & Karina Pereira, Fevereiro 2026

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